O Interior e o legado deixado pelos Judeus

Apesar de sermos um país maioritariamente católico e com fortes raízes nesta religião, que se traduz em muito do património que temos, há outras religiões que deixaram marcas profundas na arquitetura e no património cultural nacional.

Caso do que nos foi deixado pela presença Judaica que na região centro assume um relevo muito interessante, principalmente em cidades como a Guarda, Covilhã ou Trancoso ou em Vilas como Belmonte, sendo esta última um centro muito importante para a cultura judaica e para os judeus.

De facto, na região interior centro, ainda está muito presente a herança dos Sefarditas – derivado de Sefarad, a designação hebraica de Península Ibérica. Eles que já andam por estas terras desde o tempo do Império Romano, conhecendo um período de grande crescimento económico e social durante o período muçulmano, sendo que durante anos foram reconhecidos pelas suas contribuições para a economia, integrando mesmo algumas cortes.

Foi no reinado de D. Manuel que, seguindo a política dos Reis Católicos, deu ordem de expulsão aos judeus portugueses, caso estes não se quisessem converter ao catolicismo.

Muitos tentaram sair do país em nome das suas convicções religiosas, porém grande parte refugiou-se nas terras junto à fronteira.

Uma vez que tinham sido forçados ao batismo e, no entanto, se mantinham judeus, estes formaram comunidades fechadas, praticando os seus cultos em segredo e sem contactar o exterior, nasciam, assim os cripto-judeus portugueses.

Nas cidades e vilas medievais, os judeus moravam numa parte do núcleo habitacional que lhes era reservado pela Coroa e a que chamavam judiaria.

Nalguns casos, a comunidade organizava-se em torno de uma sinagoga, e muitas vezes os terrenos das judiarias eram propriedade dos reis, que alugavam casas e espaços aos sefarditas portugueses.

Muitas das casas destes núcleos estão, ainda hoje, assinaladas com marcas em soleiras de portas e janelas, indicando que ali viviam judeus.

As mais conhecidas judiarias na faixa raiana da Beira situavam-se na Guarda, Trancoso, Castelo Rodrigo, Celorico da Beira, Almeida, Foz Côa, Pinhel, Linhares e Belmonte.

Os seus membros estavam, invariavelmente, ligados às artes e ofícios, exercendo atividades como alfaiates, carpinteiros, sapateiros, ferreiros, mercadores, agricultores e médicos, e muitos serviram a corte portuguesa em atividades administrativas e financeiras até ao final do século XV.

 

A Judiaria da Guarda

Considerada a mais antiga da região, este é um dos recantos mais genuínos da Guarda medieval.

Podemos passear pela judiaria dentro das muralhas da cidade. O antigo bairro judeu ainda existe nos nossos dias, perto da Porta D’El Rei.

A comunidade judaica na Guarda foi durante muito tempo uma nas mais importantes do país e também uma das mais antigas.

O bairro judeu começava perto Porta d’ El Rei, que cobre o adro de S. Vicente, na fronteira com o pano da muralha da cidade e a Rua Direita, que conduzia a essa entrada. Este era o novo bairro judaico, uma continuação do anterior, sendo mencionado na Carta de 1199.

Ora, com o passar dos anos os cristão começaram a protestar e em 1465 o acesso foi fechado. No final do séc.XIV, viviam aqui cerca de 200 pessoas, 50 anos depois o número de judeus estava entre os 600 e os 850.

Casa do tribunal Judaico na Guarda

 

Dado interessante:

As famílias tinham nomes como Ergas , Castro, Falilho , Baruch , Mocatel, Mark Querida, Alva, Cáceres, Castelão, entre outros.

 

Os judeus eram muito importantes para o dinamismo das comunidades, exercendo profissões como alfaiates, sapateiros, curtidores, ferreiros, tecelões, barbeiros, médicos, cirurgiões, ourives e carpinteiros.

Ao caminharmos pelo centro histórico da Guarda ainda podemos ver os traços do antigo bairro judeu. A partir do século XIV, as casas dos comerciantes tinham duas portas: uma mais ampla que conduzia à loja e uma menor que era a porta da residência.

A sinagoga  situava-se, inicialmente, num prédio alugado, mas mais tarde foi transferida para um edifício construído de raiz. Em tempos idos, as casas tinham apenas um andar.

A entrada principal do bairro judaico situava-se nas Quatro Quinas, o ponto onde convergem três estradas que se cruzam e formam quatro cantos.

A estrada mais ampla conduzia à Porta D’ El Rei, uma das entradas da cidade.

Na antiga Rua Nova da Judiaria, hoje Rua do Amparo, ainda encontramos a porta – atualmente uma porta confinada – da casa do guarda, em que o vigia noturno controlava o acesso à cidade, abrindo e fechando a porta . Assim, o bairro judeu foi isolado do resto da cidade, facto que torna evidente a noção de privacidade, cultivada pelos próprios judeus.

A Inquisição e perseguição religiosa ensombraram a tolerância tradicional da Guarda, que se vivia deste a ocupação da cidade, tal como sucedeu noutras cidades. No entanto, na área urbana que compreende o antigo bairro judeu e áreas adjacentes habitados por judeus , e mais tarde por cristãos novos , ainda subsistem marcas de cruzes nas portas – geralmente no lado direito.

As cruzes eram um símbolo da cristianização das casas, mas também o testemunho do “mezuzah” que todo judeu deve tocar com a mão direita, enquanto murmura uma oração antes de entrar na casa.

 

 

Belmonte Judaica

É impossível falarmos de Judeus em Portugal e não fazermos uma relação direta a Belmonte, já que é aqui que a presença dos Judeus é mais forte, destacando-se por ter sido um caso singular de permanência da cultura e da tradição hebraicas desde o início do século XVI até hoje.

A judiaria estendia-se entre as atuais ruas da Fonte da Rosa e Direita.

Em 1297 terá sido inaugurada a primeira Sinagoga da Vila, posteriormente usada para culto cristão. Apesar de D. Manuel ter mandado expulsar todos os judeus, em Belmonte resistiu uma pequena comunidade que permanece ativa até hoje, e que apesar das constantes perseguições mantiveram a sua cultura e rituais até ao presente, subsistindo como uma comunidade fechada com as tradições a passarem de pais para filhos.

 

Em Belmonte não deixe de visitar o Museu Judaico

Em Belmonte poderá também visitar o Museu Judaico que conta a História dos Judeus no nosso país, a sua integração na sociedade portuguesa e o seu valioso contributo ao nível da cultura, arte, literatura e comércio.

Belmonte aposta bastante no turismo judaico promovendo várias iniciativas ao longo do ano que mostram a cultura deste povo.

O Mercado Kosher que se realiza uma vez por ano é exemplo dessa aposta. Neste Mercado as pessoas podem encontrar produtos que seguem os preceitos que regem esta religião e ficam a conhecer melhor esta cultura.

Há também um Hotel Judaico, o Belmonte Sinai Hotel que segue as regras Kosher e que tem sido muito procurado por Judeus que visitam a região.

 

 

Os Judeus de Castelo Branco

A Comunidade Judaica de Castelo Branco já por cá andava em anos de 1214, também muito ligada ao comércio e aos ofícios. Quando o rei decidiu que tinham de se ir embora, Castelo Branco tornou-se refúgio de muitos cristãos-novos.

Há mesmo um Judeu famoso de Castelo Branco, o médico Amato Lusitano!

 

Se visitar esta cidade siga o seu roteiro judaico e conheça a velha judiaria. Conheça as portadas de casas da Rua d’Ega, da Rua Nova e da Rua da Misericórdia onde podem encontrar vestígios dos sefarditas que aí viveram.

Penamacor também foi um dos refúgios dos Judeus aquando da expulsão dos Judeus pelos reis Espanhóis em 1492. Porém, o que destaca Penamacor entre outras terras raianas não são os vestígios judaicos deixados por esta comunidade ancestral mas sim o facto de ser o berço de uma das mais emblemáticas figuras da cultura europeia do século XVIII, o médico e filósofo António Ribeiro Sanches. Cristão-novo, perseguido pela Inquisição portuguesa ao longo de muitos anos, sob a acusação de nunca ter renunciado ao Judaísmo, foi médico de Catarina da Rússia e os seus escritos revolucionaram o ensino da medicina em Portugal.

 

Fonte: Turismo de Portugal

1 reply
  1. Manuel Marques Gonçalves
    Manuel Marques Gonçalves says:

    Há muito que chamo a atenção para a existência de marcas de cripto-judeus nesta zona. Vejo com agrado esta divulgação. Muitos sinais foram destruídos, na Covilhã e em Belmonte. lugares de que fiz levantamento sistemático, entre 1968 e 1976. E mesmo noutras localidades, Caria, Capinha, Escarigo, etc., há marcas destas, bem claras. Apreciemos e preservemos a cultura, independentemente da religião que professemos ou mesmo sem professar qualquer religião.

    Responder

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